A arte do Brasil junta e misturada

Em 1828, o escritor Mario de Andrade publicou o “Manifesto Antropofágico”, que propunha “alimentar-se de tudo o que o estrangeiro traz para o Brasil, sugar-lhe todas as ideias e uni-las às brasileiras, realizando assim uma produção artística e cultural rica, criativa, única e própria”. Impossível não lembrar desta fase do Movimento Modernista agora. Afinal, “quem mestiçou quem? Como se combinam prazer e dominação? Quais são as diferentes histórias escondidas nesses processos de mestiçagem?” são perguntas que foram o ponto de partida para uma pesquisa extensiva dos curadores Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, que queriam realizar uma exposição paralela à 31ª Bienal de São Paulo e acharam apoio na figura de Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake. É claro, o foco foi a produção artística brasileira focada em suas origens.

A mostra foi dividida em seis núcleos: Mapas e Trilhas, Máscaras e Retratos, Emblemas Nacionais e Cosmologias, Ritos e Religiões, Trabalho, Tramas e Grafismos e reúne telas, esculturas, instalações, mapas, artefatos indígenas e africanos, fotos, documentos, textos, vídeos e histórias. Temas, conceitos e linguagens, assim como artistas – nacionais, africanos e ameríndios – se misturam.

As cerca de 400 obras reunidas – originais em todos os suportes e parte das quais inéditas –, são provenientes de 60 importantes acervos nacionais e internacionais, entre os quais Musée Quai Branly, National Museum of Denmark, Instituto de Estudos Brasileiros – IEB/USP, Museu de Arqueologia e Etnologia – MAE/USP, Museu Nacional de Belas Artes, coleções Mario de Andrade, Masp, Biblioteca Nacional, Museu Joaquim Nabuco.

Além dos trabalhos já existentes,  também foram encomendados a artistas obras que serão especialmente realizadas para essa mostra. Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Luiz Zerbini, Thiago Martins de Melo, Dalton Paulo, Sidney Amaral são alguns dos nomes que aceitaram o desafio de produzir trabalhos em diálogo com a temática da exposição. Também foi especialmente confeccionado um novo mapa que traça a rota dos escravos do interior da África para o Brasil, tendo como base um estudo inédito de nosso maior africanista, Alberto Costa e Silva, e produção cartográfica de Pedro Guidara Jr.

Contingente Yanomami, de Adriana Varejão

Contingente Yanomami, de Adriana Varejão

Joaninha, de Luiz Zerbini

Joaninha, de Luiz Zerbini

Alexandrina e sua cidade, de Carybé

Alexandrina e sua cidade, de Carybé

Serviço:

Histórias Mestiças

Local: Instituto Tomie Ohtake – Av. Faria Lima, 201 – São Paulo

Data: de 16 de agosto a 05 de outubro  de 2014

Horário: de terça a domingo, das 11h às 20h

Fone: 11 2245-1900

Entrada franca

institutotomieohtake.org.br 

 

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Novidades de Inhotim para setembro

O americano Carroll Dunham tem suas obras expostas na Tate Gallery, em Londres, no MoMA, em Nova York, no Astrup Fearnley Museet for Moderne Kunst, em Oslo, entre outros museus importantes mundo afora. Agora, suas obras de apelo conceitual que exploram as relações entre abstração e figuração ganham uma galeria permanente no maior centro de arte ao ar livre da América Latina: o Instituto Inhotim. E o artista, que tem trabalhos com influências múltiplas, vindas tanto de movimentos artísticos, como a pop art e o surrealismo, quanto da pornografia e do universo dos desenhos animados, não é a única novidade de Inhotim para setembro.

Garden, de Carroll Dunham

Garden, de Carroll Dunham

Uma das quatro galerias do Instituto dedicadas a exposições temporárias, a Galeria Lago, localizada no eixo rosa, foi reestruturada para receber trabalhos de três artistas: a romena Geta Brătescu, o tcheco Dominik Lang, e o filipino radicado em Londres David Medalla.

Cloud-Gates, de David Medalla

Cloud-Gates, de David Medalla

A mostra individual “O jardim e outros mitos”, de Geta Brătescu, conhecida como Louise Bourgeois do leste europeu, reúne cerca de 60 obras produzidas entre 1960 e 2013. Em suas colagens, pinturas, desenhos, gravuras e filmes experimentais, a octogenária reflete sobre a prática artística e a condição feminina, buscando referências na visualidade e nas narrativas da antiguidade clássica.

Obra de Geta Brătescu

Obra de Geta Brătescu

Já a instalação “Sleeping City”, de Dominik Lang, foi criada a partir de esculturas de bronze produzidas por seu pai, o artista Jiří Lang, durante os anos 1950 e 1960. Apresentadas entre estruturas de ferro, madeira, vidro e tecido, as peças adquirem novos significados, envoltas por memórias pessoais e pela forte relação afetiva e artística entre pai e filho. A instalação ocupou todo o pavilhão tcheco na Bienal de Veneza de 2011.

Sleeping City, de Dominik Lang

Sleeping City, de Dominik Lang

No terceiro recorte da galeria, David Medalla assina “Cloud-Gates” (1965-2013). A obra pertence à sua série “Bubble Machines” – esculturas cinéticas formadas por espuma e criadas pelo artista pela primeira vez na década de 1960. Acionada por motor, uma mistura de água e sabão sobe por tubos de plástico, criando colunas de bolhas em constante mutação.

Para apresentar ao público as novidades, Inhotim preparou uma programação que também inclui performance de David Medalla e shows dos músicos Jards Macalé e Jorge Mautner, no dia 4 de setembro, às 15h, próximo à árvore Tamboril.

Serviço:

Nova programação de Inhotim

Local: Instituto Inhotim – Rua B, 20, Zona Rural, Brumadinho (MG)

Data: a partir de 4 de setembro de 2014

Horário: de terça a sexta-feira, das 9h30 às 16h30. Sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30.

Fone: 31 3571-6598

inhotim.org.br

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Você sabe quem é Urs Fischer?

Lembra que no último post eu comentei sobre a mostra do acervo de Pinault? Então. Lá, revi Urs Fischer e isto realmente foi tocante. Sempre é. O que mais admiro na obra dele é a capacidade de dar vida a uma espécie de “caos impreciso”, aquele senso de movimento permanente que notamos imediatamente no seu trabalho. Eu o considero quase um gênio do espaço, pelo seu modo especial de questionar a identidade e mudá-la, criando um diálogo extremamente dinâmico entre a obra e o contexto em que ela é colocada. Ele vem deixando um rastro de pólvora criativa desde a mostra “Marguerite de Ponty” no New Museum de Nova York, em 2010, o que se confirmou na recente “Madame Fisscher”, no Palazzo Grassi, também de propriedade de Pinault.

A verdade é que Urs Fischer é realmente talentoso – não estaria na coleção do empresário se fosse diferente – mas é um tipo de talento que se faz mais conhecido na medida em que mais recursos tem à sua disposição. Há artistas que podem colocar coisas notáveis no mundo com recursos modestos. Fischer não é um deles, mas nem por isso deve ser desmerecido. Ele requer recursos consideráveis de material, uma ampla gama de tecnologias, locais permissivos, cheques em branco. Em compensação, tem um reservatório de ideias inéditas, o que é, convenhamos, o mais difícil.

E ele consegue nos surpreender, principalmente com a série que vi, a “ILLUminations”, inicialmente apresentada na Bienal de Venezia de 2011, cujo tema era exatamente este: Iluminação. O que dizer daquela cópia em tamanho real de uma escultura clássica de Giambologna, “The Rape of the Sabine Women”, em cera? Acesa como uma vela, ela foi submetida a um processo incontrolável de autoconsumo. Em contraste, Urs configurou um pedestal autoiluminado, questionando os famosos cinco minutos de glória. Esta foi a forma que encontrou de explorar a história individual e coletiva em um mundo onde as mídias virtuais e simuladas permeiam cada vez mais a nossa realidade. A cera derretia, levando consigo as formas e, então, a fama. Que metáfora!

Porque ficar de olhe em Fischer? Pois estamos visualizando em suas obras de arte elementos de epifania e discernimento, através de uma experiência visual que aguça a mente e aumenta a nossa percepção do mundo em que vivemos; ele nos faz uma revelação, que nada mais é do que uma luz sobre o passado e os seus dramas, o presente e suas convenções, apontando talvez algumas vias para o futuro com suas incertezas.

Para saber mais:
ursfischer.com

urs-fischer- sabine Foto Internet

Urs Fischer no Arsenale Foto Internet

Urs Fischer

Urs Fischer - DETALHE Mostra Madame Fischer em Palazzo Grassi - Foto Internet

Urs Fischer - Mostra Madame Fischer em Palazzo Grassi - Foto Internet

 

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Bonito até debaixo d’água

“Eu acho que o crochê, da forma como o crio, é uma metáfora para a complexidade e interconexão entre nosso corpo e seus sistemas, e a psicologia. Se você corta uma das conexões, tudo vai desmoronar”, disse certa vez a artista polonesa Olek. Ela ficou conhecida por suas instalações inteirinhas revestidas em tricô, inclusive uma que apresentou aqui no Brasil: em 2012, ela criou um jacaré em crochê enorme para expor no Sesc Interlagos, em São Paulo.

Agora, ela resolveu chamar a atenção para uma causa nobre: a má preservação de nossos oceanos e da vida aquática. Foi, então, atrás das obras do escultor inglês Jason de Caires Taylor, que ficam expostas no Museo Subacuatico de Arte   (MUSA) em Cancun, no México. Mergulhou e investigou até encontrar uma peça onde não houvesse crescimento de corais que ela pudesse adaptar e transmitir seu recado. Adivinha como? Tricotando, é claro. Ela cobriu a peça “Time Bomb” com fios biodegradáveis e cores que mimetizam os vermelhos, amarelos e marrons das barreiras de coral naturais daquele bioma. “Quero criar uma mensagem positiva”, resumiu a respeito do trabalho.

Escultura 1

Escultura 2

Escultura 3

Escultura 4

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Mostra com 40 obras de Hermelindo Fiaminghi começa no dia 30 de agosto

O artista paulistano Hermelindo Fiaminghi (1920-2004) achava que não existiam cores mais puras que outras, mas sim um espectro de cores mais ou menos luminosas. Com isto, adotou no início dos anos 60 uma estética que se tornou paradigma de sua arte: a Cor-Luz. Ele a obtinha por meio de retículas feitas individualmente em pincel, o que criava uma nova maneira de compor as imagens, ao invés da tradicional mistura de tintas. E é em torno desta estética que gira a mostra “Hermelindo Fiaminghi – Cor-luz”, em cartaz na Dan Galeria, em São Paulo, a partir de 30 de agosto. Algumas obras do período Concretista (anos 50) também estarão em exibição.

Hermelindo começou sua trajetória como artista gráfico no início dos anos 1940, trabalhando com litografia. No início dos anos 1950, começou a realizar trabalhos abstratos. Neles, revelava a influência que sofrera da arte construtiva, aquela, em que pintura e escultura são pensadas como construções, guardando proximidade com a arquitetura em termos de materiais, procedimentos e objetivos. Porém, o artista Waldemar Cordeiro (1925 – 1973), um dos líderes do movimento construtivista no Brasil, o considerava um intruso. Em 1959, então, ambos rompem relações e nos anos 60, Fiaminghi começa a fase mais prolífica de sua carreira com a fase Cor-Luz, justamente a retratada na exposição em São Paulo.

Alternado IV, têmpera sobre tela, de 1969

Alternado IV, têmpera sobre tela

Corluz número 6387

Corluz número 6387

Corluz número 8945

Corluz número 8945

Corluz número 9002

Corluz número 9002

Retícula Cor Luz Vii, têmpera sobre tela

Retícula Cor Luz Vii, têmpera sobre tela

Círculos com movimento alternado, esmalte sobre madeira

Círculos com movimento alternado, esmalte sobre madeira

Serviço:

Mostra Hermelindo Fiaminghi – Cor-luz

Local: Dan Galeria – Rua Estados Unidos, 1638, São Paulo

Datas: De 30 de agosto a 30 de setembro de 2014

Horário: De segunda a sexta das 10h às 18h. Aos sábados das 10h às 13h

Fone: 11 3083-4600

dangaleria.com.br

 

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