A nova dieta mediterrânea…

Acabei de me deparar com uma estratégia, no mínimo, inusitada. Fazendo compras em um supermercado da rede francesa Intermarché, notei algumas publicidades curiosas: uma maçã grotesca, um limão falhado, uma berinjela disforme, uma batata ridícula e uma laranja abominável. Descobri depois que a nova estratégia da rede é comprar dos fornecedores frutas e legumes que costumam ser descartados ou enviados para o lixo, e depois vendê-los aos clientes com um desconto de 30%. Eles destacam que as propriedades organolépticas permanecem inalteradas e nos tranquilizam distribuindo suco e sopa feitos à base de produtos “feios, mas bons”. Denominada de Inglorious Fruits and Vegetables, a campanha na verdade quer nos conscientizar sobre o desperdício de alimentos. Segundo dados deste setor, na Europa, por não se encaixarem no padrão, mais de 300 toneladas de frutas e vegetais vão para o lixo todos os anos!

Primeiro, a rede francesa realizou um teste na cidadezinha de Provins e a operação foi um sucesso comercial, com aumento de 60% na venda de frutas e legumes, além de comentários entusiasmados dos consumidores. O resultado? A ação se expandiu para grande parte dos pontos de venda da rede que, em sua campanha publicitária, cita com certa malícia o fato de 2014 ser o “ano europeu contra o desperdício de comida”. Resta ver como o projeto irá se adequar às normas de comercialização europeias para frutas e legumes frescos, que preveem sanções para tudo o que fica fora dos padrões de venda…

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Bonito é, necessariamente, bom?

Sabemos que uma parte significativa da perda ocorre antes que os vegetais deixem o campo e, em muitos países, o desperdício chega a 52% do volume total. Parte deste problema é a estrutura do nosso sistema de alimentos industrializados: ela é composta de alguns grandes compradores e muitos fornecedores, levando a uma situação em que os maiores compradores têm o poder de ditar os termos de uma venda. Ordens de marketing emitidas por associações comerciais especificam o exato tamanho, diâmetro, consistência e cor necessária para um determinado produto ser considerado “classe A”, e se uma fruta ou vegetal não cabe neste padrão, seu preço de varejo cai drasticamente. Ou seja, o “feio” aqui sai caro para quem produz e para quem compra.

As normas são uma ferramenta necessária para os varejistas, mas o problema é que os padrões de hoje são ridiculamente altos! E, acredite ou não, maturação e sabor não fazem parte das normas de marketing, o que explica por que os corredores dos nossos supermercados estão repletos de produtos com ótima aparência, mas muitas vezes aqueles pêssegos lindos têm apenas gosto de papelão… O “bonito” neste caso pode ser muito ruim!

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Por que esta pode ser uma tendência de consumo?

Oras, é claro que somos seduzidos pelo que é belo (e isso ocorre em todos os campos de consumo), mas esta estratégia pode ser um start revolucionário no varejo de produtos agrícolas para grandes cadeias por dois aspectos importantes. O primeiro é em médio prazo e tem a ver com o custo, porque o que é feio, sempre terá que ser oferecido a um preço menor. Em um momento onde metade dos americanos e europeus sofre com a recessão, tudo o que tiver este apelo tem muita chance de fazer grande sucesso comercial. O segundo acontece em longo prazo e tem uma duração maior: é relacionado à questão social. Em um mundo onde 1/5 das pessoas sofrem de problemas de desnutrição e fome total, seria mesmo ético jogar fora alimentos bons, mas fora de padrões estéticos considerados ideais? E aqui, com crise ou sem crise, tenho certeza de que todos estamos de acordo: vamos adorar as deliciosas batatas ridículas!

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Você sabe quem é Urs Fischer?

Lembra que no último post eu comentei sobre a mostra do acervo de Pinault? Então. Lá, revi Urs Fischer e isto realmente foi tocante. Sempre é. O que mais admiro na obra dele é a capacidade de dar vida a uma espécie de “caos impreciso”, aquele senso de movimento permanente que notamos imediatamente no seu trabalho. Eu o considero quase um gênio do espaço, pelo seu modo especial de questionar a identidade e mudá-la, criando um diálogo extremamente dinâmico entre a obra e o contexto em que ela é colocada. Ele vem deixando um rastro de pólvora criativa desde a mostra “Marguerite de Ponty” no New Museum de Nova York, em 2010, o que se confirmou na recente “Madame Fisscher”, no Palazzo Grassi, também de propriedade de Pinault.

A verdade é que Urs Fischer é realmente talentoso – não estaria na coleção do empresário se fosse diferente – mas é um tipo de talento que se faz mais conhecido na medida em que mais recursos tem à sua disposição. Há artistas que podem colocar coisas notáveis no mundo com recursos modestos. Fischer não é um deles, mas nem por isso deve ser desmerecido. Ele requer recursos consideráveis de material, uma ampla gama de tecnologias, locais permissivos, cheques em branco. Em compensação, tem um reservatório de ideias inéditas, o que é, convenhamos, o mais difícil.

E ele consegue nos surpreender, principalmente com a série que vi, a “ILLUminations”, inicialmente apresentada na Bienal de Venezia de 2011, cujo tema era exatamente este: Iluminação. O que dizer daquela cópia em tamanho real de uma escultura clássica de Giambologna, “The Rape of the Sabine Women”, em cera? Acesa como uma vela, ela foi submetida a um processo incontrolável de autoconsumo. Em contraste, Urs configurou um pedestal autoiluminado, questionando os famosos cinco minutos de glória. Esta foi a forma que encontrou de explorar a história individual e coletiva em um mundo onde as mídias virtuais e simuladas permeiam cada vez mais a nossa realidade. A cera derretia, levando consigo as formas e, então, a fama. Que metáfora!

Porque ficar de olhe em Fischer? Pois estamos visualizando em suas obras de arte elementos de epifania e discernimento, através de uma experiência visual que aguça a mente e aumenta a nossa percepção do mundo em que vivemos; ele nos faz uma revelação, que nada mais é do que uma luz sobre o passado e os seus dramas, o presente e suas convenções, apontando talvez algumas vias para o futuro com suas incertezas.

Para saber mais:
ursfischer.com

urs-fischer- sabine Foto Internet

Urs Fischer no Arsenale Foto Internet

Urs Fischer

Urs Fischer - DETALHE Mostra Madame Fischer em Palazzo Grassi - Foto Internet

Urs Fischer - Mostra Madame Fischer em Palazzo Grassi - Foto Internet

 

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É na arte que começam os caminhos da moda e do design

“Art should be a trailer for the future”. É formidável esta afirmação do artista Jack Goldstein (1945-2003). Eu, pessoalmente, também não tenho dúvidas de que os artistas refletem sobre a percepção visiva e sobre o poder da imagem, que é capaz não apenas de suscitar emoções, mas também de produzir conhecimento e estímulos de reflexão. Muitas vezes esta sensibilidade permite antecipar eventos ou mesmo temas que, muito tempo depois, realmente acontecem. Por isso, na pesquisa e análise de tendências, é fundamental estarmos de olho no que eles estão colocando no mundo, pois muitos caminhos da moda e do design começam por aí.

Foi esta a curiosidade que me trouxe a Monte Carlo para ver a mostra mais comentada do verão francês. Nada mais, nada menos que “Art Lovers”, que contém todas as melhores obras da coleção de François Pinault. Para quem não está familiarizado, explico sua importância: François é o empresário que deu vida a um dos maiores conglomerados de luxo do mundo. Em 1999, o seu PPR – hoje chamado Kerin – tornou-se a terceira holding mundial deste setor, tendo adquirido, entre outros, o controle do grupo Gucci, que compreende as marcas Gucci, Yves Saint-Laurent, Bottega Veneta, Sergio Rossi, Boucheron, Stella McCartney, Alexander McQueen e Balenciaga. Quando deixou o grupo nas mãos de seu filho François-Henri Pinault, em 2003, o empresário resolveu dedicar-se exclusivamente ao colecionismo e hoje possui mais de 3 mil obras de arte, principalmente do século passado e do atual.

Pinault em frente ao Palazzo Grassi, em Veneza

Pinault em frente ao Palazzo Grassi, em Veneza

E fez muito bem, pelo que parece, pois foi recentemente indicado pela revista especializada “Art Review” como a personalidade mais influente do mundo da arte contemporânea! E diferentemente de outros colecionadores do mesmo calibre, ele adora compartilhar sua coleção com o público. Para tanto, em 2005 adquiriu o prestigioso Palazzo Grassi, em Veneza, onde anualmente oferece exibições maravilhosas, como foram “Where Are We Going?” (2006), “Post-Pop” e “Sequence 1″ (ambas de 2007) e as recentes “Prima Materia”, L’Illusione della Luce” e “Irving Penn, Resonance”.

Voltando a Monte Carlo, é a paixão de Pinault que dá nome à mostra “Art Lovers”, e ela coloca em destaque sua liberdade de expressão. Nesta importante ocasião, em um imponente local como o Grimaldi Forum del Principato di Monaco, vemos 40 obras, das quais 15 inéditas, que são um resumo de diversas gerações de artistas dos anos 60 até agora e de diversas proveniências geográficas, como Europa, América, Ásia e Oriente Médio. Destaco principalmente as que foram expostas no Palazzo dei Principi, dos artistas visionários (e polêmicos) Thomas Schütte, Subodh Gupta e Urs Fischer. Ah, detalhe: o local é aberto ao público.

Art Lovers

Exposição Art Lovers, em Monte Carlo

Vou deixar que as imagens deste post falem por si! E quem estiver de passagem por lá, corra para ver, pois vai até o dia 7 de setembro.

Quer ver algumas das melhores mostras de arte da Côte d’Azur ou apenas conhecer a cidade que encarnou o conto de fadas mais real do nosso tempo na pele da princesa Grace Kelly? Visite Monte Carlo!

Onde: Grimaldi Forum, em Monte Carlo.

Por quê: É um dos maiores centros culturais depois de Nice e oferece desde mostras de arte importantes no contexto mundial até concertos com a imperdível Filarmônica de Monte Carlo.

Cicciolina e Koons como Marte e Venus em mármore

Cicciolina e Koons como Marte e Venus, em mármore

Damien Hirst Art Lovers

Damien Hirst, na Art Lovers

Damien Hirst

Damien Hirst

Jeff Koons

Jeff Koons, na entrada da Art Lovers

Maurizio Cattelan Art Lovers

Maurizio Cattelan Art Lovers

Detalhe da obra de Takashi Murakami

Detalhe da obra de Takashi Murakami

Piotr Uklasnki Untitled de Dancing Nazis, na Art Lovers

Piotr Uklasnki Untitled de Dancing Nazis, na Art Lovers

Zeng Fanzhi Lepre, na Art Lovers

Zeng Fanzhi Lepre, na Art Lovers

Subodh Gupta

Subodh Gupta

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Coleção “Conterrâneos”

Uma instalação com fruteiras de plástico, peças inspiradas nos azulejos portugueses, na batucada do samba e em elementos rústicos, o projeto do night club de uma cervejaria. Com tantas criações diferentes fica difícil definir o designer carioca Brunno Jahara, mas o certo é que não lhe falta bom gosto.

“Conterrâneos”, sua nova coleção, traz uma conexão entre elementos naturais e os valores da simplicidade e apresenta objetos feitos a partir de terracotta, latão, palha e vidro opalino. São potes, cestos e pratos organizados em luminárias, fruteiras, uma caixa e um vaso de mesa, todos produzidos em seu estúdio em São Paulo. A textura árida do barro contrasta com o toque liso do vidro e da delicada opalina. Em termos de formas, totens funcionam como receptáculos para plantas, produtos frescos e fontes luminosas.

Fruteira Alzatina

 Alzatina

Conjunto 1

Conjunto 1

Conjunto 2

Conjunto 2

Fruittray

Fruittray

Lamp 1

Lamp 1

Lamp 2

Lamp 2

Lamp 3

Lamp 3

Paglia Lampshades

Paglia Lampshades

Pot

Pot

Vase

Vase

Vasetti

Vasetti

Serviço:

Conterrâneos by Jahara Studio

Local: Rua João Moura, 913

Horário: De segunda a sexta das 12h às 18h

Fone: (11) 2768-8232

brunnojahara.com

 

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Juan-Les-Pins: foi aqui que Coco Chanel lançou a moda do bronzeamento

Quando Scott e Zelda Fitzgerald resolveram descansar nas férias, lá pelos idos dos anos 20, escolheram Cap d’Antibes, alugando uma vila nos meses de verão. Foi algo muito estranho, afinal a Côte d’Azur – chamada pelos americanos de French Riviera – era um resort exclusivo para os meses de inverno, mesmo depois do sucesso com a Rainha Vitória sobre o qual já falamos aqui. Com este casal, deu-se o start do culto ao sol e a realização dos esportes náuticos. Em seguida, também Juan-les-Pins (localizada ao lado de Cap, onde os Fitzgerald frequentavam diariamente o cassino) virou moda, sendo tomada por uma corrente de celebridades de Nova York como o compositor Cole Porter e a escritora Dorothy Parker, sem falar na trendsetter Coco Chanel.

Chanel em 1937 em Juan Les Pins

Chanel em 1937 em Juan Les Pins

Sim, ela mesma! Chanel, uma verdadeira lançadora de tendências: trouxe para a moda o estilo marinheiro em 1913, o jersey em 1926, o cardigã e os conjuntos de malha em 1918 e as calças compridas para o guarda-roupa feminino em 1920, aliás, no mesmo ano em que adotou – e acabou impondo às outras mulheres – os cabelos bem curtos. Sem falar do famoso vestido “preto básico” em 1924, o blazer com botões dourados e o chapéu de marinheiro em 1926, o tweed em 1928, as bijus (chamadas na França de joias-fantasia) em 1930 e o tailleur em 1956. Todavia, a moda mais importante – e escandalosa – por ela lançada é de 1923: quando retornou a Paris superbronzeada de suas férias passadas na ainda desconhecida Juan-Les-Pins.

Este ato foi revolucionário, não apenas para a moda, mas também para todo o sistema estético: lembremos que até o início do século o ideal de beleza eram as peles brancas e imaculadas, junto com aquele ar chic lânguido, que depois foi retomado nas publicidades de moda dos anos 90, lembram?

Com a ajuda destes polêmicos – mas amados – personagens do jetset internacional, a Côte virou então o desejado e mítico local onde as waif-like starlets, aquelas delicadas e femininas estrelas de cinema da época, passavam as noites desfilando nas promenades (avenidas de frente para o mar), vestindo os modelitos andróginos de Mademoiselle Chanel.

O interior da Villa La Pausa em Monaco foi construìda em 1927 para Coco Chanel (no final da mesa) para viver com seu amant, o Duke of Westminster

O interior da Villa La Pausa em Monaco foi construìda em 1927 para Coco Chanel (no final da mesa) para viver com seu amant, o Duke of Westminster

Que escândalo!!! A novela de Fitzgerald “Tender Is the Night” definiu a Riviera da década de 20 como uma época de muita elegância, mas, em contrapartida, muitos excessos. O tempo passou, os excessos hoje são de outro tipo, mas um dos locais mais apreciados àquela época e ainda hoje existente – um aperitivo ao entardecer é o mínimo que posso recomendar a quem passa por ele – é o Hôtel du Cap-Eden-Roc, a que Fitzgerald se referia em seu romance como o Hôtel des Étrangers. Frequentado por Marlene Dietrich, Orson Welles, Duque e Duquesa de Windsor, Winston Churchill, Charles de Gaulle e o casal mais famoso da década de 70: Elizabeth Taylor e Richard Burton, que ali passaram por tórridas situações… Sem contar que hoje é o eleito de Mick Jagger, Mel Gibson , Sharon Stone e cenário de vários lançamentos de coleções de moda, principalmente as coleções de alto-verão de, claro, Chanel.

Desfile de Chanel

Desfile de Chanel

Busca um aperitivo elegante, com uma natureza vibrante ao entardecer na Côte d’Azur? Vá ao bar do Hôtel du Cap-Eden-Roc!

Vista do Hôtel du Cap-Eden-Roc e da vegetação em torno

Vista do Hôtel du Cap-Eden-Roc e da vegetação em torno

Onde: Hôtel du Cap-Eden-Roc, em Cap d’Antibes.

Por quê: Esta espécie de santuário na costa entre Cannes e Nice atrai celebridades há mais de um século e é um dos hotéis mais luxuosos do mundo. A vista do bar è belíssima: reserve uma mesa no Eden-Roc Grill e delicie-se com tapas ou sushis, ou apenas um prosecco. É maravilhoso!

Vista da piscina do Hôtel du Cap-Eden-Roc

Vista da piscina do Hôtel du Cap-Eden-Roc

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